sábado, 6 de fevereiro de 2010

O menino que só sabia amar

Era uma vez um menino que amava demais. Amava tanto, mas tanto, que o amor nem cabia dentro dele. Saía pelos olhos, brilhando. Pela boca, cantando. Pelas pernas, tremendo. Pelas mãos, suando. Só pelo umbigo que não saía, o nó ali é tão bem dado que nunca houve um só que tenha soltado.
O menino sabia que o único jeito de resolver a questão era dando amor à menina que amava. Mas como saber o que ela achava dele? Na classe tinha mais quinze meninos. Na escola, mais trezentos. No mundo, vai saber, uns dois trilhões? Como é que ia acontecer da menina se apaixonar por ele, que tinha se apaixonado por ela?
O menino tentou trancar o amor numa mala, mas não tinha como, nem sentando em cima o zíper fechava. Resolveu, então, congelar, mas era tão quente, o amor, que fundiu o freezer, queimou a tomada, derrubou a energia do prédio, do quarteirão e logo o menino saiu andando pela cidade escura, só ele brilhando nas ruas, deixando pegadas por onde pisava.
- O que é que eu faço? Perguntou ao prefeito, ao amigo, ao doutor e à um pessoal que passava a vida sentado em frente a um posto de gasolina.
- Fala pra ela! Diziam todos, sem pensar duas vezes.
Mas ele não tinha coragem. E se ela não o amasse? E se não aceitasse todo o amor que ele tinha para dar? Ele ia murchar que nem uma uva-passa, explodir como uma bexiga e chorar até 31 de Dezembro de 2978.
Tomou, então, uma decisão: iria jogar o seu amor ao mar, à um polvo que se agarrasse a ele (pois já que tem oito braços para os abraços, porque não oito corações para as suas paixões?), ele é que não dava conta, era só um menino, com apenas duas mãos e um coração para o maior sentimento do mundo.
Foi até a beira da praia e, sem pensar duas vezes, jogou. O que o menino não sabia, era que o seu amor era maior que o mar. E o amor do menino fez o oceano evaporar. Ele chorou, chorou e chorou, pela morte do mar e de seu grande amor. Até que sentiu uma gota na ponta do nariz, e depois outra, na orelha e outra, no dedão do pé. Era o mar, misturado ao amor do menino, que chovia do Saara à Belém, de Meca à Jerusalém. Choveu tanto que acabou molhando a menina que o menino amava, e assim que a água tocou a sua língua, ela saiu correndo para a praia, pois havia tempo que sentia o mesmo gosto, o gosto de um amor tão grande, mas tão grande, que já não cabia dentro dela.


5 comentários:

Ana Paula Florentino disse...

"E eu tive tudo sem saber que era eu".

Leo disse...

"E hoje em dia, como é que se diz eu te amo?"
Realmente vc se superou neste...

Blekic disse...

Pra variar, demais!! "...saía pelos olhos, brilhando. Pela boca, cantando. Pelas pernas, tremendo. Pelas mãos, suando. Só pelo umbigo que não saía, o nó ali é tão bem dado que nunca houve um só que tenha soltado." Muito boa essa introdução!!

Anônimo disse...

Não diz nada, você não diz nada. Apenas olha para mim, sorri. Quanto tempo dura? Faz pouco despencou uma estrela e fizemos, ao mesmo tempo e em silêncio, um pedido, dois pedidos. Pedi para saber tocá-lo. Você não me conta seus desejos. Sorri com os olhos, com a mesma boca que mais tarde, um dia, depois daqui, poderá me dizer: não.

CHARLES disse...

eu lia pensando em como era que vc terminaria. quase fui pro final só pra saber como terminava. mas tava tao bom que continuei e quando cheguei no final me apaixonei.