Logo mais ouçam no Myspace.
De um caminho, três.
Se corrermos agora
Talvez veremos no tempo
As falsas promessas
Que você me fez.
Sentiremos na pele
Toda raiva crescendo
Iludindo a promessa
Que o tempo levou.
Terminar nosso pacto
E deixar para trás
Cada passo que fez
De um caminho, três.
Pois as pedras pisadas
Desse longo caminho
Eram as três partes
Que você me fez.
Se corrermos agora
Chegaremos à tempo
De lembrar das promessas
Todas de uma vez.
E dizer para todos
As pedras pisadas
Com os passos certeiros
De um caminho ou de três.
segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010
sábado, 6 de fevereiro de 2010
Pseuda Gaga
Acho melhor voltarmos logo à programação normal deste blog, porque tem muita gente dando pinta de pseudo por aí.Dá só uma olhada aqui.
Ney Matogrosso. Ri alto.
O menino que só sabia amar
Era uma vez um menino que amava demais. Amava tanto, mas tanto, que o amor nem cabia dentro dele. Saía pelos olhos, brilhando. Pela boca, cantando. Pelas pernas, tremendo. Pelas mãos, suando. Só pelo umbigo que não saía, o nó ali é tão bem dado que nunca houve um só que tenha soltado.
O menino sabia que o único jeito de resolver a questão era dando amor à menina que amava. Mas como saber o que ela achava dele? Na classe tinha mais quinze meninos. Na escola, mais trezentos. No mundo, vai saber, uns dois trilhões? Como é que ia acontecer da menina se apaixonar por ele, que tinha se apaixonado por ela?
O menino tentou trancar o amor numa mala, mas não tinha como, nem sentando em cima o zíper fechava. Resolveu, então, congelar, mas era tão quente, o amor, que fundiu o freezer, queimou a tomada, derrubou a energia do prédio, do quarteirão e logo o menino saiu andando pela cidade escura, só ele brilhando nas ruas, deixando pegadas por onde pisava.
- O que é que eu faço? Perguntou ao prefeito, ao amigo, ao doutor e à um pessoal que passava a vida sentado em frente a um posto de gasolina.
- Fala pra ela! Diziam todos, sem pensar duas vezes.
Mas ele não tinha coragem. E se ela não o amasse? E se não aceitasse todo o amor que ele tinha para dar? Ele ia murchar que nem uma uva-passa, explodir como uma bexiga e chorar até 31 de Dezembro de 2978.
Tomou, então, uma decisão: iria jogar o seu amor ao mar, à um polvo que se agarrasse a ele (pois já que tem oito braços para os abraços, porque não oito corações para as suas paixões?), ele é que não dava conta, era só um menino, com apenas duas mãos e um coração para o maior sentimento do mundo.
Foi até a beira da praia e, sem pensar duas vezes, jogou. O que o menino não sabia, era que o seu amor era maior que o mar. E o amor do menino fez o oceano evaporar. Ele chorou, chorou e chorou, pela morte do mar e de seu grande amor. Até que sentiu uma gota na ponta do nariz, e depois outra, na orelha e outra, no dedão do pé. Era o mar, misturado ao amor do menino, que chovia do Saara à Belém, de Meca à Jerusalém. Choveu tanto que acabou molhando a menina que o menino amava, e assim que a água tocou a sua língua, ela saiu correndo para a praia, pois havia tempo que sentia o mesmo gosto, o gosto de um amor tão grande, mas tão grande, que já não cabia dentro dela.
quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010
TORÓ
A descarga elétrica é um chicote de 27,700 graus - quatro vezes a temperatura na superfície do Sol - o ar em torno é o que causa o estrondo, que viaja por entre os prédios a 340 metros por segundo. Um homem, por entre seus óculos e bigode volta os olhos para cima. A nuvem negra começa a seiscentos metros de suas pupilas e só termina catorze quilômetros depois, mas de onde está tudo o que vê é um céu tão negro que lhe dá a impressão da Terra ter sido engolida por um cachorro. As três moças de salto alto e crachá dão uns gritinhos, excitadas com o próprio susto. O velho da banca guarda o display da mulher pelada. Os dois frentistas correm para guardar os carros que passaram o dia lavando, sob o teto coberto do posto. O vendedor de frutas, aos poucos, como se num esforço descomunal, vai desmontando sua barraca. No ponto de ônibus coberto há uma pequena migração de pessoas que desejam chegar em casa antes do toró que se anuncia. Os estudantes com seus uniformes e mochilas, passam correndo e gritando pela calçada - mas talvez eles gritassem e corressem do mesmo modo, sem trovão ou chovendo canivetes. Um vira-lata solta o osso, fareja o ar espesso com pompa de especialista e sai trotando. O homem por trás dos óculos e do bigode atormenta-se com a vaga lembrança de uma janela que poderia estar aberta. Fechou ou não? Tarde demais, pois a primeira gota cai no teto do posto, a segunda em cima do ponto de ônibus, a terceira na testa de uma das moças, a quarta estatela-se no asfalto quente e a chuva desaba como o pior pesadelo de Asterix - o céu desabando sobre nossas cabeças. As moças correm na velocidade que os seus saltos permitem, o homem por trás dos seus óculos e bigode, convencido de que não fechou a janela, arrasta seu arrependimento para debaixo do ponto, onde umas quinze pessoas de acotovelam, pois a água vem de todos os lados, de cima, de baixo, do lado, do outro, jorra de dentro dos bueiros entupidos, descem como cascatas pelas calhas, sacos de lixo e garrafas pet competem no rafting do meio fio. Em cinco minutos não haverá mais niguém sob o ponto. Em quinze, o vendedor de frutas com água pelo joelho, abandonará sua barraca. Em vinte, os frentistas desistirão da trincheira de panos e pneus, a água já entrando pelos escapamentos. Em quarenta minutos a chuva já haverá terminado. As moças de salto e crachá se secarão com guardanapos da padaria do outro lado da rua e o vira-lata tremerá dentro de um fogão velho e enferrujado em algum terreno baldio. Em duas horas, o homem ajeitará os óculos e torcerá a ponta do bigode ao contemplar sua sala inundada. O toró será a principal notícia de todos os noticiários, mas quem mora por aqui prescindirá das estatísticas, bastará olhar pela janela para se dar conta do estrago - é como se a cidade tivesse sido roída por um cachorro.
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