segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

PASSEIO SOCRÁTICO


Ao visitar em agosto a admirável obra social de Carlinhos Brown, no Candeal, em Salvador, ouvi-o contar que na infância, vivida ali na pobreza, ele não conheceu a fome. Havia sempre um pouco de farinha, feijão, frutas e hortaliças.
"Quem trouxe a fome foi a geladeira", disse.
O eletrodoméstico impôs à família a necessidade do supérfluo: refrigerantes, sorvetes etc. A economia de mercado, centrada no lucro e não nos direitos da população, nos submete ao consumo de símbolos. O valor simbólico da mercadoria figura acima de sua utilidade. Assim, a fome a que se refere Carlinhos Brown é inelutavelmente insaciável.
É próprio do humano - e nisso também nos diferenciamos dos animais - manipular o alimento que ingere. A refeição exige preparo, criatividade, e a cozinha é laboratório culinário, como a mesa é missa, no sentido litúrgico.
A ingestão de alimentos por um gato ou cachorro é um atavismo desprovido de arte. Entre humanos, comer exige um mínimo de cerimônia: sentar à mesa coberta pela toalha, usar talheres, apresentar os pratos com esmero e, sobretudo, desfrutar da companhia de outros comensais.
Trata-se de um ritual que possui rúbricas indeléveis. Parece-me desumano comer de pé ou sozinho, retirando o alimento diretamente da panela.
Marx já havia se dado conta do peso da geladeira. Nos "Manuscritos Econômicos e Filosóficos" (1844), ele constata que "o valor que cada um possui aos olhos do outro é o valor de seus respectivos bens. Portanto, em si o homem não tem valor para nós".
O capitalismo de tal modo desumaniza que já não somos apenas consumidores, somos também consumidos. As mercadorias que me revestem e os bens simbólicos que me cercam é que determinam meu valor social. Desprovido ou despojado deles, perco o valor, condenado ao mundo ignaro da pobreza e à cultura da exclusão.
Para o povo maori da Nova Zelândia, cada coisa, e não apenas as pessoas, tem alma. Em comunidades tradicionais da África também se encontra essa interação matéria-espírito. Ora, se dizem a nós que um aborígine cultua uma árvore ou uma pedra, um totem ou uma ave, com certeza faremos um olhar de desdém. Mas quantos de nós não cultuam o próprio carro, um vinho guardado na adega, uma jóia? Assim como um objeto se associa ao seu dono nas comunidades tribais, na sociedade de consumo o mesmo ocorre sob a sofisticada égide da grife. Não se compra um vestido, compra-se um Gaultier; não se adquire um carro, e sim uma Ferrari; não se bebe um vinho, mas um Château Margaux. A roupa pode ser a mais horrorosa possível, porém se traz a assinatura de um famoso estilista; a gata borralheira transforma-se em Cinderela...
Somos consumidos pelas mercadorias na medida em que essa cultura neoliberal nos faz acreditar que delas emana uma energia que nos cobre como uma bendita unção, a de que pertencemos ao mundo dos eleitos, dos ricos, do poder. Pois a avassaladora indústria do consumismo imprime aos objetos uma aura, um espírito, que nos transfigura quando neles tocamos. E se somos privados desse privilégio, o sentimento de exclusão causa frustração, depressão, infelicidade.
Não importa que a pessoa seja imbecil. Revestida de objetos cobiçados, é alçada ao altar dos incensados pela inveja alheia. Ela se torna também objeto, confundida com seus apetrechos e tudo mais que carrega nela, mas não é ela: são os bens, cifrões, cargos etc.
Comércio deriva de "com mercê", com troca. Hoje as relações de consumo são desprovidas de troca, impessoais, não mais mediatizadas pelas pessoas. Outrora, a quitanda, o boteco, a mercearia, criavam vínculos entre o vendedor e o comprador, e também constituíam o espaço das relações de vizinhança, como ainda ocorre na feira. Agora o supermercado suprime a presença humana. Lá está a gôndola abarrotada de produtos sedutoramente embalados. Ali, a frustração da falta de convívio é compensada pelo consumo supérfluo.
" Nada poderia ser maior que a sedução" -diz Jean Baudrillard- "nem mesmo a ordem que a destrói ".
E a sedução ganha seu supremo canal na compra pela internet. Sem sair da cadeira o consumidor faz chegar à sua casa todos os produtos que deseja..
Vou com freqüência a livrarias de shoppings. Ao passar diante das lojas e contemplar os veneráveis objetos de consumo, vendedores se acercam indagando se necessito de algo:
"Não, obrigado. Estou apenas fazendo um passeio socrático", respondo.
Olham-me intrigados. Então explico:
Sócrates era um filósofo grego que viveu séculos antes de Cristo. Também gostava de passear pelas ruas comerciais de Atenas. E, assediado por vendedores como vocês, respondia: " Estou apenas observando quanta coisa existe de que não preciso para ser feliz ".
Infelizmente este texto chegou até mim, sem ser citada a fonte ou o nome do autor, porém me deu um enorme tapa na cara e creio, que dará na de vocês também., queridos amigos.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

O ano do Sol

Só isso bastou pra que as mandingas de fim de ano estivessem coloridas de amarelo e ouro, muito ouro.
Ler as previsões astrológicas na internet já é praxe na vida daquela pessoa.
O problema é saber como fazer a consulta, se pelo signo solar ou pelo ascendente.
Na dúvida, e levando em consideração que 2009 é o ano do Sol, ela prefere deixar-se guiar pelas vibrações solares. Optou por não usar protetor, nem o de número 15 – o mínimo que a sua pele carece.
É a forma que encontrou para que os raios ultravioletas penetrem em todo lugar que seja possível, trazendo, quem sabe, queimaduras dos mais altos graus.

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

no balanço do navio...

“Freedom on board 2009”, nada menos que perfeito. Foram três dias de gente bacana, bonita, balada, teatro, música ao vivo, comida ruim, balanço, marola, bronze, cenários paradisíacos, mais Floripa... E o saldo foi mais do que positivo: conheci pessoas maravilhosas que, certamente, já fazem parte do meu rol de amizades, redescobri uma grande amizade, encontrei uma pessoa que eu jurava para mim mesmo que um dia eu catava... e catei..risos. E a minha cor, por favor... E em 2010 tem mais.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Pelo programa sono zero: ninguém deveria ser obrigado a acordar cedo.

Uma das piores coisas da vida é acordar. Correr a São Silvestre deve requerer menos esforço do que sair da cama de manhã cedo. Falo sério, eu nunca corri a São Silvestre, mas só pelo fato dela acontecer a tarde, não deve ser tão ruim (hehehehehe). Não me entendam mal. Não sou daquelas pessoas que não gostam de viver, para quem despertar é um sacrifício, pois a realidade é sufocante e blá blá blá. Acho que estar viva é bem divertido e dormir é uma das inúmeras coisas prazerosas e divertidas que se pode fazer na vida, assim como comer chocolate, doce de leite, pipoca, quebra-queixo, fazer sexo, ver filmes, ler e ficar numa rede de bobeira.
Não tem nada melhor do que acordar no meio da noite, virar para o lado e dormir novamente. Esses segundos sonolentos em que nos damos conta de quem somos, onde estamos e, principalmente, que o dia ainda está longe de raiar e podemos voltar aquecidos pelas cobertas, ao mundo dos sonhos, é maravilhoso.
Dormir é quentinho, é macio, é cheiroso, é fácil, é de graça, faz bem para a pele, o coração e a vista. O único inconveniente de dormir é ter que acordar depois. Acordar antes do sono acabar, então, é um sacrilégio torturoso. Sou absolutamente contra esta tortura. Quando penso num mundo justo, imagino um lugar sem despertadores.
Se hoje eu não sei quase nada de química ou biologia, não é porque tais assuntos não me interessavam no colégio, eles me interessavam sim, mas não as 7:15 da manhã. A esse horário nem Brad Pitt, Tom Cruise e Rodrigo Santoro, juntos, massageando meus pés me interessam, quanto mais protozoários e alcalinos terrorosos...
Sou tão radical na defesa dos benefícios do bom sono que acho vou sugerir ao governo o programa Sono Zero. Eliminar a fome da face da Terra é uma tarefa complicada, mas o sono, ao menos, deveria ser garantido, a todos!
Todo cidadão, empregado ou não, eleitores, votantes, em conformidade com a Justiça Eleitoral ou não (nossa mãe, eu fiquei aqui rachando os últimos neurônios que me sobravam - apenas dois - para tentar construir esta frase, tive até que pedir ajuda para a universitária e como não cheguei onde eu queria deixei todas as opções propostas...hehehehehe...) tem o direito de dormir, oito horas por noite, no mínimo. Aqueles que não conseguem, pois moram longe e trabalham até tarde, deveriam receber cupons com direito a algumas horas de sono. Os cupons seriam entregues aos chefes e permitiriam que o empregado chegasse mais tarde. As escolas, por sua vez, deveriam ter horários alternativos para quem não acha divertido dar de cara com Pitágoras, Darwin e Camões logo após o galo cantar.
E por último, faço um apelo: Brad, Tom e Rodrigo, por favor, não insistam! Seus apaixonados telefonemas, as 7:00 da manhã, estão atrapalhando não só o meu sono, mas também o meu relacionamento amoroso, duas coisas que, espero que entendam, eu prezo bastante.

O sonho é o domingo do pensamento. (Henri Frederic Amiel, escritor suíço -1821-1881)

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Preciso demais desabafar

Quem me conhece - mas só quem me conhece de verdade - sabe que eu não tolero gente que se acha. Mas não o tipo de gente que só se acha e ponto – o que eu não tolero é gente que se acha, que não é porra nenhuma (ainda), mas, mesmo assim, sopra pra todos os ventos o que ela acha que é, sem pensar no papel ridículo que acaba fazendo por aí.
Não é questão de julgar os outros. Afinal de contas, se eu aponto um dedo sei que outros três voltam-se a minha direção. O lance é que não suporto gente que se acha! E quando vejo esse tipo de gente agindo, preciso abrir a minha boca de alguma forma.
Eu aprendi uma vez na minha vida a Filosofia do Sucesso. Foi o suficiente pra que não esquecesse nunca mais de todo o texto de Napoleon Hill, e encaixar aqui um trecho que cai como uma luva pra toda a minha revolta: “a luta pela vida nem sempre é vantajosa aos fortes nem aos espertos; mais cedo ou mais tarde cativa a vitória aquele que crê, plenamente, eu conseguirei!”.
Pronto, falei.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Damien Rice canta e encanta em SP

O cenário parecia pouco promissor. Minutos antes do horário marcado para o início do show de Damien Rice, às 22h, o público ainda era obrigado a saltar as poças d'água que se acumulavam em frente ao Citibank Hall graças à forte chuva que caía desde as 18h desta sexta (30) em São Paulo. Também não ajudava o fato de saber que o cantor e compositor irlandês subiria ao palco sozinho, sem a banda que o acompanha pelo mundo e, pior, sem a vocalista Lisa Hannigan, responsável pelos duetos sublimes nos dois álbuns de estúdio de Rice, "O", de 2002, e "9", de 2006. Como se tudo isso não bastasse, ainda havia boatos de que Seu Jorge e/ou Ana Carolina dividiriam os microfones com ele na apresentação, eternizando de vez a irritante versão de "The blower's daughter" que, em português, virou "É isso aí", tocada à exaustão nas TVs e FMs.

Mas a intimidade com a chuva ("Na Irlanda chove muito... bem, nem tanto assim!", brincou ao começo do show), a simpatia e, principalmente, a presença de palco segura e competente fizeram com que Rice tirasse os contratempos de letra nesta que foi sua primeira apresentação no país. E pouco divulgada, aliás, considerando a badalação em torno dos shows de James Blunt - frequente e injustamente comparado a Rice -, Little Joy e Alanis Morissette, todos nesta mesma semana.

Vestindo camisa social e jeans surrado, de pé com seu violão e poucos objetos de cena que não algumas velas toscas e um par de garrafas de vinho tinto, o músico promoveu duas horas de espetáculo, que incluiu os principais sucessos dos dois discos já citados, além de lados-B ("The professor" e "Woman like a man") e dois covers ("Hallelujah", de Leonard Cohen, e "Desafinado", de Tom Jobim). Surpreende que a ausência de Hannigan, que deixou de cantar ao vivo em março de 2007 numa separação até hoje mal-explicada, passaria praticamente despercebida não fosse pelo próprio Rice fazer questão de lembrá-la ao longo do show, seja modulando sua voz para fazê-la soar feminina, seja tomando o caminho oposto, adotando um tom grave, quase fanfarrão, no momento em que deveriam entrar os vocais angelicais característicos de sua antiga companheira de banda.

É que, diferentemente dos representantes do folk mais intelectualizado e sisudo que passaram por aqui recentemente, como Will Oldhan e Bill Calahan, Rice adota uma postura de músico de rua. Como um desses cantores de estação de metrô, ele se desdobra para atrair a atenção do público, conversa entre uma canção e outra, lança mão de piadas e anedotas sobre suas desilusões amorosas e fala muitos, muitos palavrões. Em uma mesma música, é capaz de ir do clima mais introspectivo à epifania roqueira, como na catártica "I remember", em que termina agachado no palco, cantando sobre os captadores do violão. Fácil entender como essa mistura de poeta sensível com menino-problema arranca suspiros da ala feminina dos fãs, que soltava gritinhos do começo ao final do show, mas não é só. O carisma do cantor, que parece carregar no sangue irlandês a tradição oral da trova, mobiliza a todos. Lá pelo final da apresentação, aos primeiros acordes do hit "Volcano", Rice se divertiu com a insistência do público em cantar junto e provocou: "então venham aqui cantar comigo". Em questão de 30 segundos, para desespero da segurança da casa de shows, o palco foi literalmente invadido por dezenas de pessoas. Nitidamente surpreso, mas sem perder o controle da situação, o músico dividiu a turma em grupos (incluindo o restante da plateia que permaneceu sentada) e organizou uma espécie de coro em três vozes.

Com o público ganho e devidamente reacomodado em seus assentos, Rice encerrou a primeira parte do show com todos os microfones e caixas de som da casa desligados tocando uma versão 100% acústica de "Cannonball", outro hit do álbum "O".De volta para o bis, desatou a falar sobre a recepção calorosa que teve dos "amigos e talentosos músicos brasileiros" e chamou ao palco... Max de Castro (ufa!) para acompanhá-lo no cover de "Desafinado", cantado em um português de gringo, mas sem fazer feio. Para alívio final, "The blower's daughter" veio em seguida, imaculada, exatamente do jeito que ganhou fama na trilha sonora romântica do filme "Closer", e não em sua famigerada versão abrasileirada.
Mas, como se não conseguisse mais ficar só, chamou novamente um casal ao palco para a última música do repertório. Já com o violão de escanteio, abriu as duas garrafas de vinho, compartilhou as taças com os dois fãs, apertou o play em seu iPod e brindou o público com uma interpretação etílica de "Cheers darlin'" (saúde, querida). Músico, ator, comediante, conselheiro amoroso, companheiro de copo, fechou a noite afastando quaisquer dúvidas que ainda poderiam pairar sobre si: Damien Rice está longe de ser só "isso aí".
Buá: e eu perdi!!!! Fonte G1