sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Devaneio...


“Porque sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura...”

Fernando Pessoa

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

True Blood: tô viciado...


Um produto desenvolvido pelos japoneses desencadeou uma revolução nos costumes: graças ao TruBlood, um sangue sintético que imita quase à perfeição o original humano, os vampiros que assim o desejam podem viver como seres sociais, sem mais se alimentar na jugular de inocentes. Milhares deles, então, saíram do armário – ou do caixão. Junto com eles, emergiu uma subcultura que agora quer ter direito à propriedade, ao voto, ao casamento.

E, como seria de esperar, uma onda de resistência se formou também. Grupos religiosos invocam o fogo do inferno contra a abominação de seres que não são mortos nem vivos; e a gente do interior ouve com desconfiança os rumores sobre pessoas depravadas que se entregam ao sexo perigoso com vampiros (as medidas são imprescindíveis durante a transa), ou sobre as redes para o tráfico de “V” – o sangue dos vampiros, que, em seres humanos, tem o efeito de uma droga ultrapotente. Gente provinciana como, por exemplo, a de Bon Temps, na Louisiana.

A cidade entre em polvorosa com a chegada de seu primeiro vampiro. E a garçonete caipira, vivida pela atriz Anna Paquin, apaixona-se por ele e o defende de dois charlatões que querem roubar seu sangue para comercilzar. Esse é o ponto de partida de uma das séries mais intrigantes a aportar nas telinhas, True Blood, que a HBO lançou no domingo passado.

Alguém já viu essa história antes? Em oposição à imagem de mobilidade social ilimitada da sociedade americana, a série argumenta que as regras para aceitação são restritas: ter a cor, a orientação sexual, a origem, a profissão ou a crença “errada” joga o indivíduo à margem. Donde todos estão de certa forma à margem, e lutando para se incluir em um círculo ideal que nunca se abrirá de fato. A garçonete, que tem o dom incômodo da telepatia, sempre foi considerada diferente – mas, ao se envolver com o vampiro, percebe que a sua exclusão é muito mais extensa do que imaginava. Os pensamentos que ela ouve (e que às vezes são manifestados em alto e bom som) sobre si própria e sobre os vampiros são de um preconceito mesquinho e chocante. São todas aquelas velhas frases que já foram ditas, e não raro continuam a sê-lo, sobre os negros, judeus, gays e todas as minorias.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Amor x ódio

A gente só para pra pensar sobre certas coisas quando realmente é necessário ou quando nem necessário é, mas a situação nos força a isso.
Outro dia, coloquei no orkut um vídeo de Roberta Sá, em que (como sempre), belissimamente, ela canta "Samba de Amor e Ódio" - acho que a minha preferida do seu último disco - e, com garra evidente em seu olhar, típica de quem sabe o que está falando, ela solta a frase cabal para essa minha divagação: "nem há amor sem que uma hora o ódio venha".
Se o amor está para o ódio, assim como o riso para o choro, ying para yang e o feijão para o arroz, o que está para a decepção?
Arrisco dizer que a amizade. Porque é nos amigos que depositamos as nossas maiores esperanças, os segredos, a confiança e tantos outros sentimentos bons que não tendem ao carnal. Santa Rita de Sampa prega isso muito bem quando diz que "amor sem sexo é amizade; sexo sem amor é vontade". Aí vem Roberta de novo, só pra não deixar dúvidas: "bendito ódio, ódio que mantém a intensidade do amor, seu vigor". (Para! Que isso já tá parecendo uma tese e só falta eu aplicar as normas da ABNT).
Tanta coisa que a gente ouve por aí, frases que são lidas, ouvidas, mas que logo saem pelo outro lado.
Tanta gente que a gente conhece por aí, sentimentos que são vividos, mas que logo mostram a que vieram.
É só uma questão de tempo para sabermos se algo de bom sobrevive a situações - que a própria razão desconhece.

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Sobre silêncios e vazios...

Todos os anos, em janeiro, o paulistano saboreia a sua cidade. É quando ela, sesquicentenária importadora de gente, se torna exportadora. Descansa de dois dos seus problemas: excesso de moradores e de veículos.

Em certos bairros, dá para ouvir o silêncio. Avenidas roncantes adormecem tranquilas. O direito civilizado de ir e vir, sem irritação e no tempo certo, é recuperado pelos moradores. No começo, com cautelosa alegria, mas, à proporção que o mês avança, com progressiva confiança, aquela que se tem quando se pode contar com coisa certa. Chegando ao meio do mês já se transita com a certeza de que não há uma armadilha ali adiante, não é uma pegadinha.

O barulho diminui. Ah, como os ouvidos agradecem, o sono agradece. A cadeia do bem se propaga em ondas. Menos motores levam a menos buzinas, menos freadas, menos paralisações com seu ronco surdo; menor atividade leva à redução de motos, entregadores, caminhões, motopizzas; menos baladas, transferidas para balneários e estâncias, resultam em menos gritos, brigas, música tecno marretando tímpanos, arrancadas, vozerio de manobristas na madrugada; menor número de alcoolizados resulta em menos acidentes, sirenes, rachas, choro.

Surgem carrinhos de bebê nas calçadas, antes refugiados nos shoppings e parques. São mães saboreando um prazer antigo, que tiveram quando eram elas os bebês. Desfilam muros, jardins, portões, árvores, flores, cães, vizinhos e esquinas diante dos olhos dos bebês, que aprendem como é essa outra arrumação do urbano.

Atravessar uma rua fica mais tranquilo. Alguns motoristas praticam adormecidas gentilezas. Certos de que não vão ficar presos no engarrafamento do próximo farol pelo excesso de veículos, cedem a passagem – até pedestres eles deixam passar.

Os cinemas guardam bons lugares para cada um, sem a ansiedade das longas filas e a correria para as cadeiras. Pode ser que a pipoca venha um pouco fria, por ter ficado mais tempo à espera do freguês, mas será um efeito colateral indolor.

Restaurantes, mesmo aquele "pessoa jurídica" ge-ralmente tumultuado na hora do almoço, têm sempre uma mesa à espera. O serviço flui melhor e, na saída, o carro trazido pelo manobrista chega rapidinho após o almoço de domingo, a feijoada de sábado ou o jantar de sexta-feira.
Os clubes recuperam a vida. Grandes piscinas azuladas agitam-se ao sol na piracema de crianças reluzentes e no tititi de mães trocando fofocas nas espreguiçadeiras. Nas outras áreas, massagem, spa, sau-na, academia, esportes... vida amena de balneário sem o desconforto das es--tradas lotadas.

Entidades de serviço social multiplicam atividades lúdicas e culturais. Desde as moderníssimas, como computação gráfica para crianças e adolescentes, até as nostálgicas, como bailes vespertinos com orquestra para os de cabelos brancos ou tingidos.

As ruas de comércio, o Mercadão, os supermercados, os estacionamentos, os aeroportos, o metrô, todo o serviço urbano se humaniza. Como se tivesse sido dimensionado para os que ficaram, na grande fuga de janeiro.

Não vai durar muito. Até lá, que todos saibam usufruir o privilégio. Os bens temporários têm de ser aproveitados no tempo certo, como uma safra de jabuticabas.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

U2 libera lista de faixas e capa de novo álbum

‘No line on the horizon’ será lançado em março nos EUA e Inglaterra. Disco, com 11 faixas, terá cinco formatos diferentes, incluindo vinil duplo.

A banda irlandesa U2 liberou, em seu site oficial, a lista de faixas e a arte de capa de “No line on the horizon”, o 12º álbum de inéditas do grupo. O U2 está trabalhando no álbum desde julho de 2006, e o disco deve ser lançado nos EUA e Inglaterra na primeira semana de março de 2009.

Segundo o site da banda, o disco estará disponível em cinco formatos diferentes: formato tradicional, em CD com um encarte de 25 páginas; em formato digipak com encarte de 32 páginas e o direito de baixar pela internet um filme exclusivo dirigido por Anton Corbjin; formato revista, acompanhado de uma revista de 64 páginas e do direito ao download do mesmo filme; formato caixa, com o disco do digipak, um DVD com o filme de Corbjin, um livreto de capa dura com 64 páginas e um pôster; e no formato LP duplo, em vinil, com um encarte de 16 páginas.

Ainda segundo o site, a imagem da capa do disco representa o encontro do céu com o mar, e foi criada pelo artista plástico japonês Hiroshi Sugimoto. “Get your boots on” é primeiro single do disco.

Veja abaixo a lista de faixas:
1. “No line on the horizon”
2. “Magnificent”
3. “Moment of surrender”
4. “Unknown caller”
5. “I’ll go crazy if I don’t go crazy tonight”
6. “Get on your boots”
7. “Stand up comedy”
8. “Fez – Being born”
9. “White as snow”
10. “Breathe”
11. “Cedars of Lebanon”

Confira, também, a letra do single.

Get on your boots
Future needs a big kiss
Winds blow with a twist
Never seen a move like this
Can you see it too
Night is falling everywhere
Rockets hit the funfair
Satan loves a bomb scare
But it won't scare you

Hey...Sexy Boots
Get on your Boots
Yeah...

Free me from the dark dream
Candy bars, ice cream
All the kids are screaming but the ghosts aren’t real
Here’s what you gotta be
Love & community
Laughter is eternity if the joy is real

You don’t know how beautiful
You don’t know how beautiful
You are...
You don’t know
You get it do you
You don’t know
How beautiful you are...

If someone’s into blowing up
We’re into growing up
Women are the future
All the big revelations
I’ve gotta submarine
You’ve got gasoline
I don’t wanna talk about wars between nations
Not right now

Sexy Boots
Get on your Boots
Yeah...
Foxy boots

You don’t know how beautiful
You don’t know how beautiful
You are...

Sexy Boots
I don’t wanna talk about wars

Let me in the sound
Let me in the sound
Let me in the sound
My God I’m going down
I don’t wanna drown now
Let me in the sound

Let me in the sound
Let me in the sound
Let me in the sound

Get on your Boots
Get on your Boots
Yeah...

Tanta coisa, qualquer coisa

Desde ontem que eu tô com vontade de escrever alguma coisa aqui no blog, mas o que vinha na minha cabeça eram idéias que, no final das contas, vagavam pelo marasmo. Quer dizer, o teor das idéias era totalmente chato, low profile, sem sentido. Talvez, só para mim. Porque lembrei do texto que eu tinha publicado no post anterior. Blog serve pra isso mesmo, é um lugar que a gente digita qualquer coisa, mesmo que a gente já esteja pra lá de Marrakesh.
Se blogar ajuda mesmo a organizar as idéias e a exercitar a escrita, vamo que vamo! Tô precisando muito terminar um artigo científico, e, cá entre nós, escrever algo realmente bom.

Daí, hoje, fuçando nos meus CDs, parei na letra "L". Tem sempre uma letra que me inspira. Foi no "In cité", do Lenine, que encontrei o que procurava: uma letra meio óbvia, diria alguns. Mas, suficientemente tocante neste momento, em que cancelas estão fechadas e o trem não para nunca de passar (talvez, só para mim).

Senhoras e senhores. Com vocês, a poesia de "Todos os Caminhos" (Lenine/Dudu Falcão).

Eu já me perguntei se o tempo poderá realizar meus sonhos e desejos. Será que eu já não sei por onde procurar ou todos os caminhos dão no mesmo? E o certo é que eu não sei o que virá, só posso te pedir... Nunca se leve tão a sério, nunca se deixe levar. A vida é parte do mistério, e é tanta coisa pra se desvendar.
Por tudo que eu andei e o tanto que faltar, não dá pra se prever nem o futuro. O escuro que se vê, quem sabe pode iluminar, os corações perdidos sobre o muro. O certo é que eu não sei o que virá, só posso te pedir...

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Dez motivos para blogar

1. Você pode (quase) tudo. Quando faltar inspiração, escreva uma lista de dez motivos para fazer alguma coisa. No final, acabará se divertindo.
2. É bom ter audiência, mesmo sem fazer idéia de quem são os leitores. Você apenas precisa aprender a lidar com essa relação meio íntima com leitores tão anônimos.
3. Com o tempo você percebe que sobrevive sem comentários. Segundo as estatísticas, apenas 1% dos leitores deixa um. Então pare de implorar pelos comentários dos amigos.
4. Blogar ajuda a organizar as idéias, exercitar a escrita e você ainda corre o risco de escrever algo realmente bom.
5. Amigos distantes, ou distanciados, se sentem próximos ao ler o seu blog. Você não precisa de orkut para se relacionar, e só se expõe se, e o quanto, quiser.
6. Você está deixando um registro histórico, da sua vida ou da sua época, embora isso pareça uma grande pretensão agora.
7. O fato de blog não dar dinheiro não é motivo para parar. Pense bem: você realmente não começou porque havia essa possibilidade.
8. Provavelmente você terá mais leitores do que se publicar um livro.
9. Você pode terminar uma lista de dez com nove itens e nenhum editor vai chamar a sua atenção.

Publicado no Digestivo Cultural

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Por um breve momento de perfeição

"A vida seria infinitamente mais feliz se nós pudéssemos nascer com a idade de 80 anos e gradualmente nos aproximássemos dos 18".
Mark Twain


Nada melhor que o primeiro post de 2009 seja sobre o melhor filme de 2008. Só tenho um conselho: vejam! Revejam!

Por um breve momento, quando eles têm 43 anos cada um, as trajetórias dos personagens de Brad Pitt e Cate Blanchett se encaixam e eles se olham num espelho em O Curioso Caso de Benjamin Button. O que veem - e o espectador compartilha - é este instante em que maturidade e beleza se completam e contemplam. Mas é só isso mesmo - um instante na eternidade. No restante do tempo, ou nos 166 minutos que compõem a narrativa do novo filme de David Fincher -, Pitt e Cate vivem vidas paralelas e até inversas. Ela começa o filme como uma velha, num hospital de New Orleans sitiado pelo vento. Daqui a pouco, anunciam as autoridades, vai começar o furacão Katrina, que destruiu a cidade em 2005. Cate está morrendo, acompanhada pela filha (Julia Ormond). Enquanto esperam pelo inevitável, ela dá à filha um diário e pede que o leia em voz alta. O diário relata, na primeira pessoa, o curioso caso de Benjamin Button.

Ele nasce como um freak, uma monstruosidade. Um bebê velho que vai remoçando à medida que se desenrola o fio de sua vida. Idoso, Benjamin conhece esta garota, Daisy. Vivem vidas invertidas e só por um breve momento, diante daquele espelho, atingem a perfeição do seu relacionamento.

O Curioso Caso de Benjamin Button talvez seja o mais estranho filme a surgir de Hollywood em anos. É tão delicado, frágil, tão perfeito - por mais risco que essa palavra envolva, como definição - que quase não tem competidor, e certamente não o tem na própria obra de Fincher, por mais importantes (e influentes) que sejam alguns, ou vários, de seus filmes.

Benjamin Button fala de amor, de tempo e vento. Mas lá pelas tantas ocorre outra coisa curiosa, embora talvez não tanto quanto um bebê nascer velho e ir regredindo até... Até quando? Pois essa é uma das questões que podem atordoar. Como vai terminar essa história? O que vai ocorrer com Benjamin? Numa cena, algo vai acontecer com Daisy e aí é a narrativa que se inverte. Em seus filmes anteriores, Fincher já levou sua câmera a insólitas viagens pelo interior do corpo humano, ou da mente. Aqui, a viagem interna é no próprio relato. Algo vai acontecer, mas o narrador se pergunta - se uma série de situações não tivessem se encadeado, se uma pessoa não tivesse se atrasado aqui, se outra não tivesse chamado um táxi ali e assim por diante, algo talvez não ocorresse e esse algo talvez seja a essência de Benjamin. A fragilidade. Mais do que um conto sobre a diferença, é sobre a fragilidade humana, sobre a fragilidade de contar histórias.

Se o velho retrocede até virar um bebê, sua trajetória inversa significa que, num determinado momento, ele vai se esquecer de tudo e todos e fazer sua viagem para o ventre materno, ou para a morte, não importa. O filme existe para iluminar essa trajetória, para eternizar esse momento.