segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Vi e recomendo

O texto é de Caio Fernando Abreu e trata do envolvimento de dois colegas de uma repartição pública. São "Aqueles Dois" que poderia ser qualquer um. Cláudio Dias, Marcelo Souza e Silva, Odilon Esteves e Rômulo Braga dão vida aos dois personagens do conto homônimo de Abreu no qual a montagem se inspirou. Em cartaz no Sesc São Paulo, R$ 20. O espetáculo é belíssimo.

Os atores se revezem na interpretação de Raul e Saul, personagens de Aqueles Dois, explicitando a possibilidade dos fatos aos quais eles estão submetidos poder acontecer com qualquer pessoa. O envolvimento dos dois amigos causa inveja nos demais colegas de trabalho. Assim, eles acabam sendo demitidos em nome da moral e dos bons costumes, defendidos pelo chefe de ambos.

O cenário remete a uma repartição pública, com suas gavetas, telefones e máquinas de escrever, mas também lembra a casa de um homem solteiro, que ganha o suficiente para sobreviver e mora sozinho numa cidade grande. O figurino é bastante funcional. E a iluminação, com iluminarias de mesa, acompanha a concepção criativa que norteia o espetáculo.

Numa espécie de arena, com o público disposto nos três lados, os atores, apresentando uma segurança e uma presença cênica impressionantes, desenvolvem um belo trabalho de corpo, enquanto vão contando, cantando, desenhando, lendo e interpretando a história dos dois rapazes que se encontram e se reconhecem num ambiente “deserto de almas também desertas”.
Pleno de criatividade, com um humor inteligente e sutil, além de uma sensualidade discreta, Aqueles Dois transforma os acontecimentos banais em poesia, além de apresentar o conflito da inveja humana que se incomoda com a felicidade alheia.
"Afastaram-se, então. Raul disse qualquer coisa como eu não tenho mais ninguém no mundo, e Saul outra coisa qualquer como você tem a mim agora, e para sempre. Usavam palavras grandes — ninguém, mundo, sempre — e apertavam-se as duas mãos ao mesmo tempo, olhando-se nos olhos injetados de fumo e álcool. Embora fosse sexta e não precisassem ir à repartição na manhã seguinte, Saul despediu-se. Caminhou durante horas pelas ruas desertas, cheias apenas de gatos e putas. Em casa; acariciou Carlos Gardel até que os dois dormissem. Mas um pouco antes, sem saber por quê, começou a chorar sentindo-se só e pobre e feio e infeliz e confuso e abandonado e bêbado e triste, triste, triste. Pensou em ligar para Raul, mas não tinha fichas e era muito tarde".
"Foi na noite de trinta e um, aberta a champanhe na quitinete de Raul, que Saul ergueu a taça e brindou à nossa amizade que nunca nunca vai terminar. Beberam até quase cair. Na hora de deitar, trocando a roupa no banheiro, muito bêbado, Saul falou que ia dormir nu. Raul olhou para ele e disse você tem um corpo bonito. Você também, disse Saul, e baixou os olhos. Deitaram ambos nus, um na cama atrás do guarda-roupa, outro no sofá. Quase a noite inteira, um conseguia ver a brasa acesa do cigarro do outro, furando o escuro feito um demônio de olhos incendiados. Pela manhã, Saul foi embora sem se despedir para que Raul não percebesse suas fundas olheiras".

2 comentários:

Ana Paula Florentino disse...

como assim? não chama mais os pobres para ir ao teatro????

Charles Peanuts disse...

Em meio a tantas bobagens, é muito bom encontrar alguma sensibilidade no teatro. Recomendo também, para quem gosta de coisas boas, independente da orientação sexual(sic!)