quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Pelada No Palco



Galera, lí e adorei um texto de memórias muito engraçadas da Diablo Cody na revista PIAUÍ e compartilho aqui com vocês. 

Eu nunca havia andado de moto nem feito aborto, terminara a faculdade em oito semestres certinhos e jamais roubara batom numa loja bacana. Eu era um saco, queridos. Podia sentir meu fogo apagando. Minha crise dos 25 anos pesou no estômago como um cheeseburger duplo. Essa é uma das razões para ter me dedicado ao strip-tease. 

Em janeiro de 2003, quando tinha 24 anos e estava cheia da cidade grande, me mudei de Chicago para Minneapolis. Como muitos corações solitários, tinha conhecido meu namorado Jonny na “perda de tempo mundial”, ou seja, na internet (especificamente num site sobre a fase psicodélica dos Beach Boys e a subseqüente derrocada do Brian Wilson rumo à terapia radical e todo aquele drama). Nosso namoro floresceu para o mundo real quando Jonny, do nada, me mandou um e-mail bastante curioso.

Ele tinha uma maravilhosa gravação pirata dos Beach Boys, um raro fragmento instrumental da música I’m in Great Shape, do final de 1966. Apenas uma elite de gordos que não compartilha nada com ninguém tivera acesso à gravação, mas Jonny galantemente a ofereceu para mim como se fosse uma gardênia sonora. Como uma virgem poderia resistir àquele vinil? Aceitei o símbolo de amor nerd com um desmaio devidamente criptografado e protegido de vírus cibernéticos, e um romance acabava de nascer.  Imediatamente, atirei meu namorado da época no fundo do poço com a força de um tiro de bazuca. Logo enviávamos um ao outro fitas de músicas extremamente confessionais (nada simboliza melhor o amor verdadeiro do que fitas cassetes cinzentas com os nomes das músicas escritos à mão). Atendendo a pedidos, Jonny me mandou fotos dele, com sua esposa simpaticamente retirada de cada uma por meio do Photoshop.

Eu juntava contas de telefone que se desdobravam longamente como a Carta Magna e tocavam o chão da mesma forma que o meu queixo caído de espanto.  Quando um encontro ao vivo pareceu urgente, decidimos viajar separadamente para Los Angeles e nos encontrar no Whisky a Go Go, como verdadeiros roqueiros metidos a besta. Em pânico, tive uma crise de coceira segundos antes do horário marcado para o nosso encontro. Felizmente, Jonny nem ligou para o meu rosto coçando e cheio de bolinhas e olhou direto para os meus peitos. Passamos o resto do dia passeando por Hollywood, entornando cerveja mexicana, de mãos dadas, nossas palmas pegajosas grudadas de suor. Foi um primeiro encontro para entrar na história, culminando com os dois pelados e frenéticos na cama de um quarto de hotel em Marina del Rey. 

Minha mãe, justificadamente neurótica com a idéia de que eu ia cruzar o país para me encontrar com um estranho, previu que receberia em casa um corpo morto num saco. Mas eu trouxe de volta um corpo, simplesmente um corpo muito bom no que fazia. Jonny era incrível, legal, nota dez, material de primeira. Meu coração e meus órgãos genitais emitiram um decreto determinando que eu me mudasse imediatamente para onde Jonny morava, Minnesota.  Assim, eu logo estava dirigindo uma van por vários estados, parando só para comer galinha frita engordurada em restaurantes de beira de estrada. Não estava deixando muita coisa para trás, a não ser um emprego de baixo nível num escritório de advocacia prestes a falir, no qual uma mulher reprimida chamada Louanne me fazia arquivar coisas. Meus pais ficaram desconcertados com a mudança, mas eu tinha que me mandar. O amor é misterioso e foda, como dizia o vocalista do Journey, Steve Perry.  Quando cheguei, me mudei para o condomínio de subúrbio em estilo colonial de Jonny, que parecia uma Casa Branca em versão piorada.

No apartamento, as paredes eram brancas, os eletrodomésticos eram brancos, os ruídos eram brancos e o carpete era da cor de areia virgem. Em Chicago, eu vivia num prédio zoneado e sem elevador, perto de um bar e de um centro de recuperação de jovens assassinos. Minha nova locação, ao contrário, era tão silenciosa que dava para ouvir uma agulha caindo.  Em Minnesota eu poderia ser a garota mais anônima do mundo. Se quisesse, poderia me reinventar e virar campeã de hóquei. Poderia usar gravatas como as dos mafiosos e carregar um cachorrinho de madame pela cidade. Poderia mudar meu nome para Lynn, ficar bulímica e vomitar barras de cereal dietéticas nas latas de lixo. Parecia mágica! Eu tinha me apagado, como aquela cantora Lisa Loeb faz naquele clipe supergay.  Depois de passar dois dias vagando pela cidade sem falar com ninguém, consegui trabalho como digitadora numa agência de publicidade que parecia o cená-rio de um filme do Kubrick, com paredes cobertas de aço escovado e aparelhos de televisão.

Enquanto preenchia pilhas de papel com roteiros de propagandas de rádio imbecis (correções eram proibidas), via a neve caindo pela minha janela no 26º andar. Os flocos caíam tão rapidamente da camada cinzenta de nuvens que eles não pareciam subir ou descer. Apelidei Minneapolis de “Cidade Branca”.  Eu até gostava da agência de publicidade. Alguns dos benefícios de se trabalhar lá eram: grande variedade de chás normais e descafeinados, incluindo os sabores maçã e chá preto com laranja; conexão de internet de primeira, rápida como um coelho; um excelente Porn Shui.  Meu amor da internet, Jonny, tinha grandes esperanças de que eu fosse bem-sucedida em Minneapolis. Por isso, me senti meio mal quando peguei uma espécie de gripe mutante letal depois de apenas uma semana na Cidade Branca. Como o vírus atacou minhas pernas, tinha que me arrastar com a ajuda dos braços pelo nosso apartamento alugado e vazio. Quando finalmente voltei ao trabalho, ainda não tinha parado de mancar. Enquanto capengava da minha mesa até a copiadora, as pessoas me olhavam como se perguntassem: “Quem contratou a aleijada?” 

 Por outro lado, as primeiras semanas na minha nova casa foram radiantes e recompensadoras. Eu fazia jantares cafonas, como fondue ou carne assada queimada, enquanto Jonny (um velho habitué do rock local)
tirava sons estridentes de sua guitarra Epiphone vermelha. A filha de três anos de Jonny, uma larva precoce com covinhas de celebridade infantil, dormia lá em casa algumas noites por semana e, no começo, parecia tranqüila com a minha repentina inclusão em sua família partida. Quando eu estava sozinha em casa, tentava obstinadamente terminar o terrível romance que estava escrevendo desde o começo da faculdade.  Inspirada pelos talentos musicais de Jonny, tentei aprender a tocar baixo, mas, quando finalmente fiz um teste para uma banda de eletropop, os membros do grupo me olharam como se eu estivesse peidando o tema de Mahogany, aquele filme brega com a Diana Ross.

Fiquei chateada com a rejeição, e meu baixo rapidamente adquiriu uma grossa camada de poeira, o que foi realmente uma merda, porque eu queria ter uma presença de palco como a da Kim Gordon, do Sonic Youth, ou da Kim Deal, dos Pixies, ou de qualquer baixista de cabelos lisos escorridos chamada Kim que tenha sido minha heroína na adolescência. Naquela época, não sabia que acabaria mostrando o dedo do meio para o público inúmeras vezes, ainda que em circunstâncias diferentes das que eu imaginara.  Olhando para trás, eu tive uma bela vida. Foi uma existência digamos nota oito (dois pontos a menos pelo clima de merda e pela gripe mortal). Ainda assim, me sentia inquieta, procurando agitação desesperadamente, como uma criança que rouba um gole do vinho da mãe. Estava chegando ao lado negro dos meus 20 anos, mas não parava de me mexer, ainda me sentia uma adolescente com formigas na calcinha. A grande mudança para Minneapolis tinha provocado uma espécie de azia psicológica, e sentia como se me tivessem oferecido uma última oportunidade de fazer uma loucura sem ter que lidar com as conseqüências da vida adulta.  Eu disse “última” porque sempre fui um ser humano do sexo feminino bem-comportado. As provas: nunca havia andado de moto, nem naquelas japonesas fraquinhas.

Nunca havia engravidado por acidente ou feito um aborto. Recebi cada um dos sacramentos, com exceção do matrimônio e da extrema-unção. Terminei a faculdade em oito semestres certinhos (com uma crise nervosa em cada um). Nunca joguei bebida na cara de alguém no meio de um porre. Nunca furtei batom numa loja bacana. Eu era um saco, queridos. Podia sentir meu fogo apagando. Minha crise dos 25 anos pesou no estômago como um cheeseburger duplo. Acho que essa é uma das razões por ter acabado seminua numa boate como a Skyway Lounge.  Uma noite, no finalzinho do inverno, estava me arrastando para o ponto de ônibus depois de mais um dia entediante na agência como uma esplêndida digitadorazinha de merda. Passei por um desses bares enfurnados em que as garçonetes trabalham com os peitos de fora, e prestei atenção na marquise, onde normalmente estava escrito: “Noite Amadora $200” (e, às vezes, “cidade da diversão”, do que eu discordava). Eu tinha a tendência a passar correndo em frente ao Skyway Lounge, como se sua aura molecular pudesse me contaminar incuravelmente com piolhos genitais.  A frase “Noite Amadora” (relacionada ao strip-tease) sempre formou uma imagem específica na minha cabeça: eu via uma bêbada de pernas tortas cambaleando pelo palco da boate, com sapatos altos e surrados de dama de honra, enquanto o marido a estimula com um maço de cigarros light: “Vamos lá, querida! Seus cigarros estão aqui! Só mais uns passos e as duzentas pratas são nossas!”

Stripper é uma profissão que parece superglamorosa, mas a idéia de tirar a roupa no circuito amador me desesperava tanto quanto uma cidadezinha do interior do Texas. Ainda assim, eu estava curiosa.  Só havia entrado num bar de strip uma vez, em Chicago. Era um estabelecimento que não podia vender bebidas alcoólicas, sombrio e sem graça, dirigido pela máfia russa. Senti pena das garotas perambulando de mesa em mesa, suas bocas abertas em semi-sorrisos, como belos cadáveres. Meu companheiro e eu compramos uma lap dance cada um, aquele lance em que as garotas dançam e se esfregam diretamente no cliente, e trocamos cômicos olhares de animação e pânico enquanto as strip-pers giravam passivamente sobre nossas virilhas. Minha stripper, uma garota andrógina de cabelos raspados e vestido de vinil, era uma fonte indiferente e ineficiente de calor. Quando ela se inclinou para a frente e abriu a bunda para me mostrar o olho do cu, eu disse: “Gostei das suas botas.”

Desde então, a experiência ficou gravada na minha tenra cabecinha, e tentei me imaginar nua naquele salão cheio de espelhos e com cheiro de bunda. Eu não conseguia. Eu era uma legítima idiota.  Suponha que eu conseguisse reunir um pouco de desembaraço e entrasse no Skyway Lounge: mesmo se tivesse coragem para tirar a roupa por diversão, sabia que teria que dar satisfações a um pequeno, mas reprovador círculo social feminino. A maioria das garotas que eu conhecia odiava strippers com a mesma fúria reservada a estupradores em série. Elas usavam “stripper” como um adjetivo para desprezar qualquer coisa estúpida, nojenta ou repugnante. Por exemplo: “Esses sapatos são coisa de stripper, Jen.” Ou: “Kyle me dispensou por alguma puta stripper que faz compras em lojas de varejo.” Uma garota típica do meu grupo preferiria tirar as cutículas com gilete a permitir que seu parceiro fosse associado a garotas peladas. Essa paranóia era reforçada por histórias sensacionais de namorados que tiveram seus membros emporcalhados por strippers. Pouco importava se aquilo fora pago, e feito de livre e espontânea vontade: era culpa exclusiva da stripper ousar divertir um pênis que havia sido tão difícil de ser conquistado por outra garota.  Nunca tive essa hostilidade em relação às strippers. Elas eram simplesmente as dançarinas de outrora, as garotas dos bares de hoje em dia, com superpeitos. Como ouvira falar que as strippers eram bem pagas, achava difícil acreditar que tivessem interesse em roubar o namorado, o marido ou o caso de alguém. Para mim, as strippers, mesmo as...


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Um comentário:

Anônimo disse...

Nossa quem é vivo sempre aparece..risos. Ótimo texto.