domingo, 14 de dezembro de 2008

A bolha em que todos nós - héteros e gays - vivemos

E eu que achava que a minha forma de amar era dolorosa. Acabei de ver o filme The Bubble que conta a história de amor entre um palestino e um israelense. Se achamaos que sofremos preconceito, que não podemos sair de mãos dadas pela rua com nossos amores, trocar carícias e beijos como o resto do planeta faz em público, imagina em meio a guerra?

Em um bairro de Tel Aviv, três jovens israelenses dividem um apartamento: o balconista Noam, Yali, o gerente de um café, e a vendedora Lulu, única hetero do trio. A harmonia do grupo é abalada pela chegada de Ashraf (Yousef Sweid), um palestino que inicia um namoro com Noam. Com a entrada do personagem, o filme amplia seu escopo das questões afetivas para as políticas, como o preconceito e a dificuldade de uma convivência pacífica.

O amor homossexual de Noam e Ashraf é o pano de fundo para ressaltar as incontáveis barreiras que se sobrepõe diante de uma relação homossexual e diante de “inimigos” potenciais. Os conflitos de Ashraf em relação a sua sexualidade, sua família e sua obrigação “sanguínea” falará mais alto. Como se fosse impossível fugirmos das tradições, do destino?

A cultura americana cerca a vida dos jovens idealistas preocupados em realizar uma rave pela paz. Eles também têm seus ídolos americanos, sua versão para o American Idol, visuais modernos e uma visão descolada da realidade. Assim como seus irmãos habitantes da terra do Tio Sam.

Simples e emblemática as cenas se sobrepõe com ritmo, leveza e poesia. Tocante na cena da relação sexual do casal gay. Triste na cena do casamento da irmã de Ashraf. Inevitável no final. Um filme polêmico. Mas como deveria ser a vida de pessoas que vivem regadas por intolerância?
The Bubble tem o mérito de ser um doce e fatal retrato gay de uma sociedade que ainda não se aceita. Como nos guetos homossexuais, onde os indivíduos se discriminam com toques de sadismo. A bolha que cerca Ashraf se mostrou permeável e estourou. Todos nós temos a nossa.

O final do longa, inesperado, é um verdadeiro chute na boca do estômago. Um desfecho que, além das emoções que deflagra, é um convite à reflexão sobre países do mundo onde ser gay é a ponta do iceberg, ou a bolha do título, com um universo muito maior de intolerância gelada por baixo. Estou chocado até agora, sabe aquela sensação de vazio, de dor, de impotência? Vejam e reflitam, se alguém ainda acha que os gays reclamam muito e se fazem de vítima, vejam o filme, e vocês entenderão porque uma Parada ou algo com o qual nos identificamos é tão edificante - passamos por problemas, dúvidas e percalços que nenhum héterossexual irá passar - e isso já basta para amarmos mais e intensamente.

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