sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Tinham um olhar dentro, de quem olha fixo e sacode a cabeça, acenando como se numa penetração entrassem fundo demais, concordando, refletidas. Olhavam fixo, pupilas perdidas na extensão amarelada das órbitas, e concordavam mudas. A sabedoria humilhante de quem percebe coisas apenas suspeitas pelos outros. Jamais saberíamos das conclusões a que chegavam, mas oblí­quos olhávamos em torno numa desconfiança que só findava com algum gesto ou palavra nem sempre opor­tunos. O fato é que tínhamos medo, ou quem sabe algu­ma espécie de respeito grande, de quem se vê menor frente a outros seres mais fortes e inexplicáveis. Medo por carência de outra palavra para melhor definir o sen­timento escorregadio na gente, de leve escapando para um canto da consciência de onde, ressabiado, espreita­ria. E enveredávamos então pelo caminho do fácil, ten­tando suavizar o que não era suave. Recusando-lhes o mistério, recusávamos o nosso próprio medo e as enca­rávamos rotulando-as sem problema como "irracionais", relegando-as ao mundo bruto a que deviam forçosamen­te pertencer. O mundo de dentro do qual não podiam atrever-se a desafiar-nos com o conhecimento de algo ignorado por nós. Pois orgulhos, não admitiríamos que vissem ou sentissem além de seus limites. Condicionadas a seus corpos atarracados, de penas cinzentas e três gar­ras quase ridículas na agressividade forçada ― condicio­nadas à sua precariedade, elas não poderiam ter mais do que lhe seria permitido por nós, humanos.

Um comentário:

Carol disse...

Tá inspirado neném?????