domingo, 23 de novembro de 2008

Melhor de três

Fazia muito tempo que eu não ia ao cinema três vezes seguidas e via três excelentes filmes. O primeiro foi o belíssimo Romance, do Guel Arraes, com Wagner Moura (lindo e sensual) e Letícia Sabatella; sempre adorei os filmes do Guel, desde O Auto da Compadecida a Lisbela e o Prisioneiro, mas este Romance é aquele tipo de filme que te faz sair do cinema com um baita sorriso no rosto, acreditando nas pessoas e no amor. A história é meio clichê, mas a a diferença aqui está na maneira como ela foi contada, o que fez toda a diferença.

Saí de Romance e, no mesmo dia, vi Os Estranhos - filme de terror que havia me aguçado já no trailler, completamente assustador - e o filme eleva esse terror à enésima potência. Também é uma história clichê, o que prova que, em se tratando de filmes e livros todas as boas histórias originais já foram contadas, o que pode-se fazer é contá-las de maneiras diferentes e criativas. Fazia tempo que não ficava preso na poltrona, tenso e morrendo de medo (nem a porcaria Jogos Mortais 5, está na hora de parar já, me deixou assim). O filmes não mostra quase nada, e mesmo assim é explicitamente violento e amedrontador. Veja acompanhado!

O que nos traz a mais grata surpresa dessa trinca. Vicky Cristina Barcelona, o novo filme do diretor Woody Allen. Scarlett Johansson (que faz o papel de Cristina) já é praticamente sua musa assumida (fez não somente “Ponto final”, mas também o sub-apreciado “Scoop - o grande furo” como protagonista) - ou seja, é possível compreender a facilidade com que o diretor explora seu potencial diante das câmeras. Mas como explicar a naturalidade com que Javier Bardem (completamente excitante e irresistível, muito diferente do psicopata de Onde os Francos Não Têm Vez) e Penélope Cruz costuram a história, com uma parte de sensualidade, uma de caricatura (ah, esses catalães esquentados…), uma parte de romance, e uma de humor. E ainda tem a (para mim) desconhecida Rebecca Hall, no papel de Vicky, a perfeita “moderna e reprimida” jovem americana! Impossível imaginar que Woddy tinha tudo isso no bolso, ou melhor, na sacola antes de começar a rodar “Vicky”…

Para quem ainda não assistiu - e sem tirar a graça de você que ainda quer ver - a história é simples: duas amigas americanas vão passar o verão em Barcelona. Vicky (a que aparentemente sabe o que quer) está prestes a se casar com “o homem perfeito”. Cristina (a que tem certeza apenas do que não quer) saiu de mais um fracasso amoroso e profissional. As duas encontram o artista plástico Juan Antonio (Bardem) que nos primeiros dois minutos de conversa declara sua intenção de levar as duas para a cama. Sem aceitar de primeira, as duas se aproximam dele, sabendo apenas que ele acaba de sair de um casamento tumultuado, depois que sua ex-mulher, Maria Elena, tentou matá-lo (preciso dizer quem faz o papel de Maria Elena?). Maria Elena, claro, reaparece a certa altura para ver o que se marido anda aprontando…

Imagine as possibilidades de sedução de uma história como essa - com um elenco como esse! Imaginou? Agora multiplique por dez. Como quem parece contagiado pela temperatura de um verão ibérico, Woody Allen desenrola entrelaces delirantes, como se, pelo menos por uma estação, o racional fosse suspenso e as pessoas se entregassem aos seus desejos. De uma maneira extremamente orgânica - nada ali, mesmo no ritmo de fantasia que predomina no filme parece que é forçado - os personagens vão descobrindo - ou melhor, vão convencendo uns aos outros, e ao mesmo tempo se convencendo - de que tudo pode, tudo é possível (a ponto de você se sentir desconfortável de assistir o filme ao lado de sua namorada ou seu namorado, ou marido, ou esposa, com quem você inevitavelmente se sentirá compelido a discutir seus desejos - ou não, reprimindo talvez uma relação que já não anda muito saudável…).

A facilidade com que eles aceitam isso é rapidamente absorvida por nós, meros espectadores, a ponto de a certa altura, sem que percebamos, já estarmos a ponto de aceitar todos os jogos amorosos e sensuais ali propostos sem nos preocuparmos em perguntar se não existe um preço a pagar por tudo isso…

Claro que existe - e quando ele é cobrado no filme, você já está tão envolvido com toda a trama que sua vontade é amaldiçoar o diretor por ter (mais uma vez) interferido como um “deus ex machina” no destino daquelas pessoas… (algo que Woody, como criador, faz com freqüência - e que já deixou até explícito, por exemplo, em “Poderosa Afrodite”, onde é a própria figura de um “deus ex machina” que decide que, no final, os dois personagens principais vão viver separados, cada um levando o filho do outro sem saber - um dos seus finais mais lindos de toda sua obra).
Depois do tobogã de possibilidades de relação que ele pinta em “Vicky Cristina Barcelona” - que inclui até um beijo sutilmente erótico entre duas das atrizes mais sensuais do cinema atual, Johansson e Cruz -, você se sente quase traído por ele ter dado uma solução tão corriqueira para todos os dilemas. Mas a vida é assim, não é? - parece que Woody pergunta a você, como uma provocação.

4 comentários:

Ana Paula Florentino disse...

Nossa, que texto bom! Adorei porque me deixou com vontade de ver o filme também! Eu vou!

Anônimo disse...

Gata, o filme é a sua cara... tipo Closer em Barcelona..risos

Anônimo disse...

haha, mas o filme não tem nem 1/3 do peso de Closer. Pelo contrário, é tao leve que voce sai sorrindo do cinema e com uma baita vontade de tomar vinho...em barcelona de preferência.

Carol disse...

Os Estranho...meu Deus...fiquei tensa, com medo, indignada e passada...