segunda-feira, 13 de outubro de 2008

A umidade das almas

– Por que chove tanto lá fora hoje?
– Não sei. Mas ontem chovia também. Por que tua pergunta hoje?
– Porque ontem não olhei pela janela.
– Nenhuma vez?
– Nenhuma.
– E o que prendia tua atenção aqui dentro, para que nada do que acontecesse lá fora tivesse a mínima importância no despertar de tua curiosidade?
– Chovia aqui dentro.
– Aqui dentro? Não, não chovia. Aqui dentro nunca chove.
– Chove sim. Você nunca se deu conta?
– Imagine. Impossível. Estamos absolutamente seguros aqui dentro. Nem vento, quanto mais chuva. Você não está passando bem?

– Pois, estou lhe dizendo, é como digo. Chovia aqui dentro ontem. E não foi a primeira vez. Há tempos que as coisas são, aqui, assim, como ali, como lá. Chove aqui como chove lá. Espio gota a gota. As gotas de cá, não as de lá. São estas gotas, as gotas das nossas chuvas, as únicas que me interessam. Tem quem ache tão romântico espiar a chuva pela vidraça, olhando, lá fora, a gente que passa a se encolher debaixo de um guarda-chuva, ou de uma capa improvisada. Não eu. Não quero saber de quem passa lá fora, atravessando, com meu olhar, esta vidraça. Gosto mais de olhar pra cá, aqui pra dentro, onde nossa chuva não nos faz correr, nem nos acobertar. Nesta chuva, que só nossa é, ao nos molharmos, é só por dentro. Ai, um friozinho... um friozinho de chuva no estômago, no peito, uma vontade de cobertor no coração. É linda nossa chuva, pena que você nunca tenha reparado nela. Só lamento que, por chover tanto por aqui, poucas crianças vejo à nossa volta, porque – quem não sabe? – criança gosta de sol pra correr, brincar, festejar. Ah! criança eu já fui um dia e, agora, pensando nisso, lembro que, nessa época, não chovia, de fato, aqui dentro. Todo dia era dia de sol. Às vezes, lá fora sim, a chuva caía, e eu, como criança enfadada, espiava, pela vidraça, a calçada deformada pelas poças d´água que eu não podia pisar. Não sei bem como foi se dando essa coisa da chuva passar... passar a ser minha aqui dentro. Não sei também como foi se dando essa coisa da vidraça não se unir mais ao meu olhar. A vidraça lá, eu cá, aquela gente toda, seca ou molhada, do lado de fora, noutro tempo, noutro pensamento. Minha chuva comigo, acordada, dormindo, triste ou sorrindo. Sei que fui ficando com a chuva pra mim, e assim fui me acomodando entre pingos e gotas dos meus dias umedecidos.
– Isto não está certo! O que se passa com a tua sensatez? O que foi que te aconteceu para que assim, de repente, você se entregasse a essas tolices da imaginação, crendo serem as figuras da tua insensatez toda a tua, a nossa realidade?
– Tolices? Tolas eram as cenas que eu enxergava pela vidraça. Tolas eram as horas que consumiam minha visão submissa diante de uma parede de vidro. Através dela, eu via a vida gelada. Tão gelada que minhas emoções foram se transformando num nada. Disso, lembro-me bem. Só não me recordo quando foi que caiu a primeira chuva do lado de dentro. É que foi tão de mansinho... a água caindo, eu me vendo molhada, pelo lado de dentro... foi tão natural... foi assim, talvez tolamente, de fato, uma composição de chuva imaginária inspirada na minha insensatez... foi assim, talvez, que, mesmo molhada, passei a sentir todo o calor do mundo. Por que você ri agora?
– Porque continua chovendo lá fora.
– E o que mais você vê pela vidraça, além da chuva que cai lá fora?
– Você descalça, acenando para o sol, como se a chuva nunca tivesse existido.
– Então entra comigo, agora, antes que a chuva nunca mais pare, nesta linda gota carmim que tolamente criei para absorver todas as nossas tristezas.
– Tristezas?
– Isolados nela nos entreteremos na nossa chuva, se você não se culpar por abandonar, para sempre, a vidraça.
– De comum, além da chuva do lado de dentro, o que terão, então, as nossas vidas?
– Serão elas tênues reflexos, bem pálidos, das nossas almas úmidas em todas as poças cismadas.

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