"Os que sabem fazer fazem, os que não sabem ensinam, os que não sabem ensinar ensinam aos professores, e os que não sabem ensinar aos professores fazem política. (...) Não há ninguém mais sonhador que o cínico. É porque ainda acredita, do fundo da alma, que o mundo tem um sentido e porque não consegue abrir mão das baboseiras da infância que ele adota a atitude contrária. A vida é uma bandida , não creio mais em nada, e dela gozarei até a náusea, são as palavras perfeitas do ingênio contrariado. (...)
Mas eu, do meu lado, acredito que essa frase é um verdadeiro pensamento profundo, justamente porque não é verdade, ao menos não é uma verdade absoluta. Ela não quer dizer o que se pensa no início. Se alguém ascendesse na hierarquia social na proporção de sua incompetência, garanto a vocês que o mundo não giraria como gira. Mas o problema não é esse. O que essa frase quer dizer não é que os incompetentes têm um lugar ao sol, é que nada é mais duro e injusto do que a realidade humana: os homens vivem em um mundo em que são as palavras , e não os atos, que têm poder, em que a competência última é o domínio da linguagem. É terrível, porque na verdade somos uns primatas programados para comer, dormir, nos reproduzir, conquistar e tornar seguro o nosso território, e os mais dotados para isso, os mais animais entre todos nós, são sempre passados para trás pelos outros, por esses que falam bem, quando, na realidade, seriam incapazes de defender seu jardim, de trazer um coelho para o jantar ou de procriar corretamente. Os homens vivem num mundo em que são os fracos que dominam. É uma injúria terrível à nossa natureza animal, um gênero de perversão, de contradição profunda".
Esse é um trecho do livro A Elegância do Ouriço, de Muriel Barbery, que comecei a ler esta semana e revelou-se uma grata surpresa.
Qual é a história? À primeira vista, não se nota grande movimento no número 7 da Rue de Grenelle: o endereço é chique, e os moradores são gente rica e tradicional. Para ingressar no prédio e poder conhecer seus personagens, com suas manias e segredos, será preciso infiltrar um agente ou uma agente ou - por que não? - duas agentes. É justamente o que faz Muriel Barbery em seu segundo romance.
Para começar, dando voz a Renée, que parece ser a zeladora por excelência: baixota, ranzinza e sempre pronta a bater a porta na cara de alguém. Na verdade, uma observadora refinada, ora terna, ora ácida, e um personagem complexo, que apaga as pegadas para que ninguém adivinhe o que guarda na toca: um amor extremado às letras e às artes, sem as nódoas de classe e de esnobismo que mancham o perfil dos seus muitos patrões.
E ainda há Paloma, a caçula da família Josse - e os trechos acima são do diário dessa menina de 12 anos. O pai é um figurão da política, a mãe dondoca tem doutorado em letras, a irmã mais velha jura que é filósofa, mas Paloma conhece bem demais o verso e o reverso da vida familiar para engolir a história oficial. Tanto que se impõe um desafio terrível: ou descobre algum sentido para a vida, ou comete suicídio (seguido de incêndio) no seu aniversário de treze anos. Enquanto a data não chega, mantém duas séries de anotações pessoais e filosóficas: os Pensamentos profundos e o Diário do movimento do mundo, crônicas de suas experiências íntimas e também da vida no prédio.
As vozes da garota e da zeladora, primeiro paralelas, depois entrelaçadas, vão desenhando uma espiral em que se misturam argumentos filosóficos, instantes de revelação estética, birras de classe e maldades adolescentes, poemas orientais e filmes blockbuster. As duas filósofas, Renée e Paloma, estão inteiramente entregues a esse ímpeto satírico e devastador, quando chega de mudança o bem-humorado Kakuro Ozu, senhor japonês com nome de cineasta que, sem alarde, saberá salvá-las tanto da mediocridade geral como dos próprios espinhos.
Em outras palavras: fodástico!!!

2 comentários:
Cara! Essa “teoria” que tá no primeiro parágrafo lembra uma de Frank Zappa, sobre os críticos musicais: “Quem sabe, faz. Quem não sabe, ensina. Quem nem isso sabe fazer, vira crítico musical”. Pensando em JOR cultural, a frase é inspiradora até dizer chega! Rs.
Poxa, lê logo este livropra eu poder ler tb e ficar um pouquinho inteligente que nem você e menos medíocre....hehehehehehehe....
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