segunda-feira, 7 de julho de 2008

Com o fio da lãmina bem afiada

Texto publicado no Jornal do Brasil, do Tárik de Souza, em 8/7/1990, sobre a morte do Cazuza

O exagerado Cazuza, com suas rasantes na poética da paixão dilacerada, rompeu as farpas da fronteira rock/MPB. Em letras de corrosão lupicinica, este Agenor, quase xará de Cartola, sorveu música ao mesmo tempo em que dissipava a vida em noites que nunca tinham fim (Por que a gente é assim?) lá pelos Baixos da vida. Bem Nelson Cavaquinho da geração rocker.

Sempre auto-irônico, realizou a profecia de 'ganhar pra ser carente profissional'. Alguém capaz de explicitar seduções íntimas: 'Há dias planejo impressionar você, mas fiquei sem assunto. Vem comigo, no caminho eu explico'. Um Morrissey de pele dourada pela tropicalidade, à cata de 'um pouquinho de proteção ao maior abandonado, seu corpo com amor ou não, raspas e restos, mentiras sinceras me interessam'. A devastação afetiva, a relação narcísica especular pós moderna, não poderia ter gerado polaróide mais holográfica. 'Se todo alguém que ama, ama pra ser correpondido, se todo alguém que eu amo é como amar a lua inacessível, é que eu não amo ninguém'. Sem arrego, touché monsieur Lacan.

Em parcerias com o constante (Roberto) Frejat, o periódico doublé de letrista e crítico Ezequiel Neves e os demais barões vermelhos (Guto e os ex-integrantes Dé e Maurício Barros), Cazuza despontou como crooner e ponta de lança da classe de 82 do BRock, a da Blitz, do Paralamas, do Kid Abelha, do Magazine e até do Herva Doce.

A misturadeira do tempo já peneirou esses primórdios, o que só fez ressaltar o lastro do nosso Lou Reed de plantão, nos desvãos da saciedade amorosa: 'Ser teu pão, ser tua comida, todo o amor que houver nessa vida, e algum trocado pra dar garantia'.

Em carreira solo, Cazuza aprofundou os sulcos de suas obsessões, ampliou o leque de parcerias (Lobão, Leoni, Gil, Rogério Meanda) servindo-se com freqüência da dialética das antíteses. 'O nosso amor a gente inventa, pra se distrair e quando acaba a gente pensa que ele nunca existiu'. Mesmo no embalo de uma bossa nova, raríssimo caso de hit retardatário na comemoração dos 30 anos do movimento, ele enfia a faca da dor: 'Digo alô a um inimigo, encontro um abrigo no peito do meu traidor'. Faz parte do meu show.

Acossado pela aids, Cazuza, nos últimos discos, afiou ainda mais o fio da lâmina: 'Eu vi a cara da morte e ela estava viva', lanceteou ele no estilete de Boas novas, do álbum Ideologia. 'Se você quiser saber como eu me sinto, vá a um labortório ou num labirinto, seja atropelado por esse trem da morte', vomitou em Cobaias de Deus (em parceria com Angela Rô Rô), no duplo do testamento Burguesia.

Mas o aço da navalha vinha sendo temperado ao longo de toda a carreira. A erosão de Só as mães são felizes, a que cita os pontos cardeais de sua cartilha poética, de Allen Ginsberg a Rimbaud ('você nunca sonhou ser currada por animais, nem transou com cadáveres'), data de 85. É contemporânea da autópsia em corpo vivo de codinome Mal nenhum: 'Não me chamem a polícia, não me chamem o hospício, não, eu não posso causar mal nenhum, a não ser a mim mesmo'.
O poeta terminal, cantor da garganta em chamas e voz sem apuro, sempre exorcizou a própria condição de passageiro da agonia. Quando voltou a lente para as mazelas do país, acionou morteiros no rock enredo Brasil ('mostra a tua cara, quero ver quem paga pra gente ficar assim') ou abriu a metralhadora em O tempo não pára: 'transformam o país inteiro num p..., pois assim se ganha mais dinheiro. Escancarando, sem economizar conseqüências, locutor impune da indignação no país dos seqüestros industrializados. A geração AI-5, comprimida entre o amor livre e a praga da aids, auto-imolou seu mártir a sangue frio.

quarta-feira, 2 de julho de 2008

um mago e muitos números...

Terminei de ler a biografia do Paulo Coelho, do Fernando Morais. Confesso que, logo quando o Paulo Coelho surgiu, com O Diário de um Mago e O Alquimista, adorava e lia todos os seus livros, religiosamente, a despeito dos erros de português, das mensagens sentimentalóides, das polêmicas envolvendo magia, de fazer ventar e chover. Sempre o achei uma pessoa curiosa. Vendido? Talvez. Segundo o mainstream da nossa literatura, um subliterato, que escreve mal e coisas sem nexo, que poderiam ser resumidas em poucos parágrafos. Para os seguidores da magia, uma fraude. Como ser humano, agora que conheço sua história - ao menos a que ele deixou editar, já que sua biografia é autorizada e teve toda a sua ajuda na apuração dos fatos -extraordinário.

O livro mais parece uma obra de ficção do que uma biografia apegada aos fatos. Paulo nasceu natimorto; era depressivo ao extremo; foi internado três vezes em um manicômio e fugiu duas; viajou sem eira e nem beira pelo Brasil afora; se drogava muito, e todos os tipos imagináveis de drogas; foi ator e dramatugo; teve experiências homoafetivas; foi preso pelo DOI-CODI; sofreu tortura no cativeiro, acovardou-se e assim, perdeu o primeiro grande amor de sua vida; salvou pessoas de um terrível acidente de carros; vendeu a alma para o diabo e se arrependeu; encontrou-se com o diabo e ficou amedrontado com o que viu e sentiu; levou Raul Seixas pro caminho das drogas e da magia negra, mas também o guiou às grandes vendagens; criou com o maluco beleza a tal Sociedade Alternativa, que nem eles sabiam o que era exatamente; envolveu-se com vampirismo; sagrou-se mago; tinha um escravo quando fez o Caminho de Santiago; é arrogante ao extremo; achou e perdeu o amor milhares de vezes por culpa do medo de ser deixado; é o autor de maior sucesso mundial na história da litaratura, com mais de 100 milhões de exemplares vendidos; foi ignorado pelo presidente Lula, mas recebeu homenagens da Rainha da Inglaterra e dos presidentes de diversos países; foi massacrado pela crítica; é odiado pelos literatos, que o enxovalham em praça pública, com insultos e grosserias; não está nem aí e continua lançando um livro a cada dois anos; mora num castelo em uma cidadezinha do sul da França; é reconhecido em qualquer lugar do planeta; faz parte da Academia Brasileira de Letras, apesar de escrever mal...segundo seus detratores; nunca sai de um evento sem atender a todos os leitores, nem que estes ultrapassem marca dos milhares. Esse é o homem por trás do mago e do escritor: egocêntrico, depressivo, inseguro, sobretudo humano ao extremo.

Depois que li, achei necessário.

Irei reler todos os livros dele que já li e ler o único que dispensei, que é A Bruxa do Portobello.

Sei lá, a felicidade e o sucesso alheio incomodam e muito.