quinta-feira, 19 de junho de 2008

Apenas um desabafo

Tenho medo. Mas agradeço muito por esse medo. Enquanto tiver esse medo dentro de mim, permeando todas as minhas ações e atitudes, eu terei a certeza de que não vou me acomodar e simplesmente aceitar as coisas como elas são. Porque aprendi que, na verdade, elas não são. O que acontece é que somos sufocados pelo medo e deixamos as coisas como elas são e não como deveriam ser.

Tenho medo de ser espancado na rua, mas não vou deixar de vivenciar a minha verdade; tenho medo de não conseguir um companheiro para viver o resto dos meus dias, para me aceitar como sou e aceitar que nossas vidas serão difíceis mas que valerá a pena; tenho medo de envelhecer sozinho pois sei que não terei filhos; tenho medo de, daqui a vinte anos, continuarmos na mesma, e ainda não termos nenhum direito; tenho medo de ter um companheiro, construirmos uma vida juntos e quando ele morrer, sua família querer tomar de mim tudo que conquistamos juntos, isso porque não existe uma lei que me proteja; tenho medo de meu companheiro adoecer e eu não poder entrar no hospital ou na sala de cirurgia para segurar sua mão; tenho medo de adotar um filho e ele ser hostilizado pelo mundo, mesmo que o amemos com todas as nossas forças e criemos um ambiente sem preconceitos dentro de casa; tenho medo de contrair o vírus da AIDS e ser culpado por isso, não por ter me desprotegido, mas por ser gay; tenho medo de encontrar o amor da minha vida e ele ter medo de amar; tenho medo de todas as religiões que destorcem as palavras de Deus para tentar provar que o que eu sinto é errado e desumano; tenho medo que minha família me abandone e não me compreenda. Mas apesar de todos esses medos, agradeço aos céus por ter nascido gay e ter essa força interna para enfrentar a vida.

Por isso humildemente agradeço e admiro todos os GAYS, LÉSBICAS, BISSEXUAIS, TRANSEXUAIS, TRANSGÊNEROS e TRAVESTIS ASSUMIDOS, que com sua coragem, bravura, transparência, valentia, determinação, ousadia, atrevimento e delicadeza, tornaram o nosso mundo um pouco mais tolerante. Agradeço, também, a todas aquelas pessoas que passaram pela minha vida e me aceitaram como sou, ou que apenas fingiram que me aceitavam para sentirem-se bem consigo mesmas. Agradeço a todos os homens que eu conheci e, pelo menos por um momento, se entregaram aos seus próprios desejos. Agradeço a todas as pessoas que me repudiaram, humilharam e me chamaram dos mais diferentes e criativos xingamentos para a minha condição de gay, hoje eu me sinto lisonjeado. Agradeço acima de tudo aos meus verdadeiros amigos que serão a minha família quando eu me encontrar velho e sozinho. É esse amor que me dá forças e coragem e que me faz seguir em frente, acreditando que as coisas irão mudar.

(trecho de um texto que escrevi...)

Um comentário:

Carol disse...

Xan, não tenho o que dizer sobre este seu desabafo, pois é triste pensar que você tem razão, inferlizmente a intolerância e a maldade sempre vem primeiro....
é complicado pensar que hoje em dia, você tem que deixar de fazer certas coisas por medo de ser repreendido ou até mesmo morto, infelizmente é o que você disse, quando alguém é maltratado ou sofre qualquer tipo de agressão (física ou psicológica) ele é sempre o culpado, por mais que a justiça venha, em algum momento ele vai ser culpapo por tal fato ter acontecido...credo...diquei deprimida...hehehehehe....