quarta-feira, 30 de abril de 2008

Continuação - O Pensamento Lúdico

Imaginem a situação, uma pessoa está chegando a um local público, onde neste local ela é completamente desconhecida, ninguém ali está a par de sua conduta, hábitos, personalidade ou qualquer outra informação sobre ela, se não o simples fato do julgamento, que é impróprio, pois este implica na deformação precedente do caráter de um determinado individuo. Ela chega anunciando ser um estrangeiro, independente do lugar, ela simplesmente altera seu sotaque, adquire determinados trejeitos, finge uma personalidade e até troca de nome, ela simplesmente se torna o que ela quiser, faz um jogo, sem que os participantes saibam que estão jogando, ela individualmente cria uma realidade na qual seu verdadeiro universo não faz parte.
Neste momento este indivíduo está negligenciando sua moral, pois mesmo para ele aquela realidade na qual está criando é falsa, dando margem assim, para um entendimento falso sobre sua pessoa diante de todos aqueles desconhecidos. Isso pode ser classificado em um âmbito jurídico como falsidade ideológica, como consta no Art. 299 do Código Penal CP – DL – 002.848-1940[1].
Em um âmbito mais fantasioso e artístico temos o ator, profissional que tem como objetivo negligenciar quem ele é, criando personalidades, e vivendo situações irreais diante um público, que por muitas vezes, de tão suprema que é a atuação deste artista, se confundem entre realidade e fantasia, vivendo por alguns instantes dentro de um jogo entre esses dois mundos distantes que a arte tem como papel aproxima-los, fabricando muitas vezes o falso julgamento desse ator, por se deixarem entrar de tal forma neste jogo que perdem a consciência que aquilo era simplesmente uma atuação.
O contexto de lúdico é muito amplo, discussões intermináveis podem ser travadas em cima de seus significados.
Por exemplo, a criança joga e brinca dentro da mais perfeita seriedade, fazendo disso um universo sagrado. Mas sabe perfeitamente que está jogando. O esportista da mesma forma joga com o mais fervoroso entusiasmo, mesmo sabendo também, que está jogando. O mesmo ocorre com a música que se eleva a um mundo superior, sem perder o caráter lúdico de sua atividade. Temos como concluir então que a qualidade lúdica faz parte das ações mais elevadas.
Neste caso, podemos colocar as atividades religiosas neste nicho, por mais absurda que possa parecer à idéia inicialmente. Assim, nossas idéias de magia, culto e liturgia seriam todas abrangidas pelo conceito do jogo. O ato de culto possui todas as características formais e essenciais do jogo, sobretudo na medida em que transfere os participantes para um mundo bem diferente. Platão já inseria a identidade do ritual no jogo, e afirmava o seguinte: “É preciso tratar com seriedade aquilo que é sério. Só Deus é digno da suprema seriedade, e o homem não passa de um joguete de Deus, e é esse o melhor aspecto de sua natureza. Portanto, todo homem e mulher devem viver a vida de acordo com essa natureza, jogando os jogos mais nobres, contrariando suas inclinações atuais... Pois eles consideram a guerra uma coisa séria, embora não haja guerra, jogo ou cultura dignos desse nome, justamente as coisas que nós consideramos mais sérias. Portanto, todos devem esforçar-se ao máximo por viver em paz. Qual é então, a maneira mais certa de viver? A vida deve ser vivida como jogo, jogando certos jogos, fazendo sacrifícios, cantando e dançando, e assim o homem poderá conquistar o favor dos deuses e defender-se de seus inimigos, triunfando no combate.”[2]
Este presente trabalho irá tentar chegar a um simples consenso sobre o lúdico, fazendo o simples entendimento desse termo se relacionar com o objeto de Design, desmembrando-o e colocando-o em avaliações analíticas para que o lúdico seja aflorado em seu conteúdo.



[1] Art. 299 - Omitir, em documento público ou particular, declaração que dele devia constar, ou nele inserir ou fazer inserir declaração falsa ou diversa da que devia ser escrita, com o fim de prejudicar direito, criar obrigação ou alterar a verdade sobre fato juridicamente relevante.

[2] Cf. Leis, VII, 7966 B, onde Platão fala das danças sagradas.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Uma música que seja...

... Como os mais belos harmônicos da natureza. Uma música que seja como o som na cordoalha dos navios, aumentando gradativamente de tom até atingir aquele em que se cria uma reta ascendente para o infinito. Uma música que comece sem começo e termine sem fim. Uma música que seja como o som do vento numa enorme harpa plantada no deserto. Uma música que seja como a nota lancinante deixada no ar por um pássaro que morre. Uma música que seja como o som dos altos ramos das grandes árvores vergastadas pelos temporais. Uma música que seja como o ponto de reunião de muitas vozes em busca de uma harmonia nova. Uma música que seja como o vôo de uma gaivota numa aurora de novos sons...

Esse Vinicius de Moraes sabia das coisas. Talvez por ter conhecido todo tipo de gente. Talvez por ter circulado por todo tipo de ambiente. Talvez por ter sido escritor, compositor, boêmio, galanteador, unanimidade. Ele que sabia a importância dessa vida. Ele sabia ao que realmente dar valor. Não perdia tempo com bobagens. Apenas ouvia a música...

Quisera eu ser como o poeta, às vezes sou e às vezes não. Sou humano, erro. Graças a Deus.

O pensamento Lúdico

Definição:
Do lat. Ludu, jogo
Adj. , referente a jogos, brinquedos, divertimentos, passatempos; relativo ao jogo enquanto componente do comportamento humano. [1]

Acredito que o pensamento ou a atitude lúdica, por assim dizer, vem antes mesmo da criação da palavra propriamente dita. Trazendo do dicionário a definição, teoricamente precisa, pode nos fazer pensar, que qualquer tipo de atitude ou comportamento relacionado ao jogo, que o mais pré-histórico dos homens possa ter tido, pode ser considerada lúdica. Uma simples caçada, que se tornou uma disputa, ou o simples fato do comando pelo bando, onde lutas podem ter sido criadas, representa uma atitude lúdica, pois o jogo está presente em tais atitudes, talvez atitudes arcaicas e viscerais, mas era a forma que o homem antigo podia se expressar.
Contudo essa definição, teoricamente precisa de nosso idioma, pode ter “deformado” o significado mais intrínseco que o lúdico pode nos dar.
Em outros idiomas, como as principais línguas européias, onde spielen, to play, jouer, jugar, significam tanto jogar como brincar, amplificam o significado da idéia lúdica, dando certa disposição filosófica para o entendimento desse termo. Já o nosso idioma frequentemente nos obriga a usar uma ou outra palavra – jogar, brincar – deteriorando a exatidão da tradução tirando uma unidade terminológica que os outros idiomas propiciam[2].
A evolução do homem e do pensamento humano foi dando ao lúdico, visões além do simples fato do jogo, a transformação para o termo jogar pode nos tirar da mais real das realidades em que o homem se encontra. A inserção da ética dentro do pensamento nos obriga a colocar um contexto moral no significado: “a moral é o ser do homem”. [3]
A moral é um processo de auto-realização do homem, um processo na qual incide o nível mais fundamental do ser-homem. Ela determina o que se é enquanto homem. E o lúdico interfere profundamente nessa questão, pois jogar pode-se valer de iniciativas e ou atitudes em que a moral pode ser afetada............continua.
[1] Dicionário Universal da Língua Portuguesa.
[2] Huizinga Johan, Homo Ludens – O jogo como elemento da Cultura, 3ª reimp. Da 5 ed. de 2001. Editora Perspectiva.
[3] Aquino, São Thomas, O Lúdico na Idade Média.

sábado, 26 de abril de 2008

Tudo novo de novo

E pensar que a idéia de criar esse blog surgiu do nada. Quer dizer, tiveram sim umas preliminares, quando eu e o Alê comentávamos sobre a vontade de ter um blog cada, e sobre a preguiça de criar e postar. Trata-se daquele velho dilema, que só quem tem um blog conhece: escrever sobre o quê?
Eu, com o meu quase vício declarado por internet, na noite seguinte ao papo, como quem não quer nada, digitei o endereço do último blog que tive. E fiquei surpresa quando vi que o bichinho ainda está lá, firme e forte. E ainda mais surpresa quando vi que o blog dos demais pseudos estavam linkados ao meu e, consequentemente, ainda vivos.
Como escrevíamos mal! Como nossas idéias cambaleavam entre o tosco e o inimaginável!
Alguns anos depois (e com todos os tombos que levamos nesse tempo), cá estamos, para escrever algumas palavras, certos de que serão muito mais "enxutas" do que as antigas.
Não acredito que seja pretensão. São fatos! Mas eu me recuso a publicar qualquer coisa velha, só pra ponderar. Ponderar ..tsc.. como se eu fosse uma pessoa que divaga sobre possibilidades...